quinta-feira, 4 de julho de 2013

Gramsci e o Brasil: Memória, Política e Sociedade

Por Lucas Lacerda

Durante essa primeira semana de julho, a Universidade Rural recebe eventos relacionados à 11ª Semana Nacional de Museus, ocorrida em maio. Por aqui, exposição de trabalhos, debates e palestras se encontram no II Seminário Memória, Patrimônio e Cultura da UFRRJ. O evento, que começou segunda-feira (1), se estende até hoje (4).

Terça-feira (2), no auditório Hilton Salles, foi a vez de o professor Ricardo Berbara mediar o debate acerca do pensamento de Antonio Gramsci, o marxismo brasileiro e a juventude participante de ações contra-hegemônicas. A ocasião se deu também por conta do pesquisador e editor Luiz Sergio Henriques lançar o livro “Vida e Pensamento de Antonio Gramsci 1926-1937”, de Giuseppe Vacca.

A reitora Ana Maria Dantas abriu a mesa, discursando sobre a influência de Gramsci em sua carreira como educadora, ao ilustrar a importância da força ideológica da sociedade civil. E, principalmente, quando essa força não-violenta é usada para combater o Estado e seus aparatos de coerção, como se tem visto nas manifestações majoritariamente pacíficas:


- Do ponto de vista da educação, Gramsci representa uma visão possibilitadora – declarou a professora, após associar o pensamento do autor italiano à sua instrução pedagógica repleta da obra de Paulo Freire.


Contra-hegemonia e manifestações


Em seguida, a palavra foi dada a professora de Ciências Sociais Lucília Augusta de Paula e autora de “O Movimento Estudantil na UFRuralRJ: memórias e exemplaridade”. Os recentes protestos contra a deterioração da qualidade de vida, ausência de representação satisfatória, apenas para citar os mais recorrentes, permearam a fala da professora, que discursou sobre as ações e a mobilização contra-hegemônica.  

A professora Lucília afirmou, sob a perspectiva de Gramsci, que nenhum poder se mantém sem hegemonia, ou seja, há certa aceitação daqueles sob seu domínio. E no capitalismo, é necessário o apoio de certos grupamentos da sociedade, como a imprensa.  Ainda na opinião da professora a grande mídia emite uma opinião, ou dá um direcionamento aos fatos, ou seja, toma partido.

De certa maneira, Lucília acredita não numa resposta quanto a melhorias e mudanças no cenário político e social no país, mas não descarta a possibilidade, e aponta a importância de questionar os representantes:

- Vemos o congresso correndo para votar matérias, adiantar as pautas. Essas manifestações mostram cansaço com a atual situação, o que tira toda a classe de políticos da situação de conforto que se mantém há anos – encerra a professora, que ainda respondeu perguntas sobre a Jornada Mundial da Juventude. Para Lucília, há um esvaziamento político na maioria da massa participante do evento. A JMJ levou 2 milhões de pessoas à Espanha, em 2011, número também estimado para a edição brasileira.

Da esquerda para a direita: O ensaísta e tradutor Luiz Sergio Henriques, e os professores Raimundo Santos, Lucília Lino e Manlio Silvestre Fernandes.


Legislação pelo alto, política e atores sociais


Natural da Sardenha, Gramsci decerto não imaginava a repercussão que teriam seus conceitos, tais como o ‘intelectual orgânico’, a distinção das sociedades civil e política, a crítica ao determinismo econômico e hegemonia. O professor do Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ), Raimundo Santos, versou sobre a política, o “divórcio” entre as sociedades política e civil, destacando a importância da ação política no campo social, principalmente nos anos de ditadura militar. O professor também destacou a importância circunstancial, histórica, como fator imprescindível para qualquer ação:

- Não tem santo que nos salve, a não ser olhar para a realidade brasileira – decretou, completando com o valor da associação a grupos de militância, como movimento estudantil e juventude partidária.


A última fala do dia, do tradutor, ensaísta e um dos organizadores de Gramsci no Brasil, Luiz Sergio Henriques, juntou-se à voz do professor Raimundo. Henriques também é editor do site Gramsci e o Brasil, e aposta que a cidadania deve estar ligada à política.

Militante do PBC na juventude, comparou a visão de Gramsci sobre a Rússia com a resistência política no Brasil durante a ditadura. O autor italiano dizia ser ilusório achar que se poderia tomar o poder como na revolução, que culminou com a tomada do Kremlin pelo Exército Vermelho. Para o caso do Brasil, Luiz Sergio defendeu que a retomada da democracia e a elaboração da constituição em 1988 foram possíveis por causa da resistência política não-violenta.

Todos os presentes na mesa concordaram que é impossível prever o rumo das manifestações, e não acreditam que os movimentos pelo país vão parar. Luiz Henriques afirma que fazer política é necessário, e acredita que revoluções e mudanças profundas só são possíveis através desse trabalho:

- Não estamos acostumados a fazer manifestações. Demorou, até, para o caldo entornar. Mas é preciso ter sangue frio, precisamos lutar para mudar essas políticas públicas, porque é um absurdo o que se faz com o contribuinte. Mas isso é algo difícil, demorado, e precisa de ação política.

Os próximos eventos estão disponíveis no blog do II Seminário Memória, Patrimônio e Cultura da UFRRJ.

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